segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Ainda escrevendo...

22.27
22.12.19

[O que é a hora e o que é o dia? Não me importa. Aliás, por mera coincidência, isso tem a ver com o poema abaixo]

Estou com uma vontade enorme de escrever, escrever e escrever. De te contar várias, tá, algumas, coisas. De te contar alguns pensamentos, alguns sentimentos. Algumas nuvens que passam pelo meu céu mental. 
Mas para a surpresa de todos... I am emotionally mute. Vi essa expressão ontem num site e de cara me identifiquei e a adotei pra mim. 
Nesses momentos, em que desesperadamente quero pousar mas as minhas asas insistem em voar, ou em que desesperadamente quero alçar voo mas minhas asas insistem em não bater, recorro ao mundo da poesia como último recurso. Pelo menos tenho a certeza que lá encontrarei as palavras que não encontrei dentro de mim. Ou que sim encontrei, mas não consegui externalizar, verbalizar. 
Pois bem, me resta apenas compartilhar com você o poema no qual abri, aleatoriamente, o livro do Álvaro de Campos. 
Se chama ´passagem das horas´ - Irônico não? Pra menina que não tem nenhum conflito com o conceito de tempo, e que ontem nem escreveu no seu diário usando exatamente o termo ´passagem´ para se referir ao tempo...

21.12.19
 I am a bit lost regarding the passage of time and regarding the passage of my life in general. Things seem to be just occuring and I have no say and no control - I don't like the word control and I realized that the best is to really let go of control. By doing so, we don't suffer as much, as we see our lives moving forwards in a fast pace. It feels like my life is an ever-flowing river, it just keeps on going and its waters keep on moving forwards and never stop- and I don't have an option but flow with it. There is no way to stop it. Ok! I am ok with that.
Aqui vai o poema:
PASSAGEM DAS HORAS

Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço.
Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.
Sou mais variado que uma multidão de acaso,
Sou mais diverso que o universo espontâneo,
Todas as épocas me pertencem um momento,
Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.
Fluido de intuições, rio de supor-mas,
Sempre ondas sucessivas,
Sempre o mar — agora desconhecendo-se
Sempre separando-se de mim, indefinidamente.

Ó cais onde eu embarque definitivamente para a Verdade,
Ó barco com capitão e marinheiros, visível no símbolo,
Ó águas plácidas, como as de um rio que há, no crepúsculo
Em que me sonho possível —
Onde estais que seja um lugar, quando sois que seja uma hora?
Quero partir e encontrar-me,
Quero voltar a saber de onde,
Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social,
Como quem ainda é amado na aldeia antiga,
Como quem roça pela infância morta em cada pedra de muro,
E vê abertos em frente os eternos campos de outrora
E a saudade como uma canção de mãe a embalar flutua
Na tragédia de já ser passado,
Ó terras ao sul, conterrâneas, locais e vizinhas!
Ó linha dos horizontes, parada nos meus olhos,
Que tumulto de vento próximo me é ainda distante,
E como oscilas no que eu vejo, de aqui!

Merda p'rá vida!
Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago,
Ter deveres estagna,
Ter moral apaga,
Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral,
Vive na rua sem siso.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Revisitando meu diário


09.04

Hoje é terça, o dia que eu vou viajar. Acabei de acordar, são 9.50. Fui dormir quase 3 acho. Mas to bem. Eu tinha acordado as 8.10, e não conseguia mais dormir, aí falei nem a pau. Aí consegui eventualmente voltar a dormir.

Mas eu vim aqui pra falar do meu sonho.

Foi a primeira vez, pelo que eu saiba, que eu sonhei com o Yossi. Estávamos passeando tipo numa taielet perto do mar, tava escuro, não tinha muita gente perto. De repente, ele me puxa e me abraça, e no começo eu saio do abraço dele (o possível motivo foi relatado no diário mas censurado do blog, perdão) mas depois eu meio que deixo, and I release and surrender, e me deixo envolver no abraço dele, e depois eu fico segurando o braço dele tipo o ombro e tal. Foi bom. É a primeira vez que sonho com ele, e logo a primeira vez, foi algo físico. Interessante. Em realidade, ainda não nos tocamos.

hmm, mas ontem na praia, quando um foi passar o sorvete pro outro, nossas mãos se tocaram pela primeira vez e a mão dele tava quente. não eh q as mãos se tocaram mamash, só se resvalaram. mas a sensação foi gostosa. talvez isso influenciou meu sonho.

enfim, depois ele viu um carro azul com um B escrito, e acho q a gente precisava ir pra algum lugar e queria um carro, então ele virou a placa em cima do carro que dizia táxi, p que ninguém percebesse, e entrou no carro, eu tava aflita que iam nos descobrir. então, eu vejo um guardinha chegando, morro de medo, aviso o yossi, falo p ele inventar uma desculpa, acho que falei pra ele falar q tinha que ir p hospital com urgência ou algo do tipo, e aí o guardinha veio e o yossi falou o que eu tinha dito p ele falar ou algo parecido.

não lembro de muito mais.

mas acho que uma sementinha esta sendo plantada.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Uma tarde gostosa

Lembra daquele dia em que passamos a tarde juntos no Bar Ilan?
Estou no meio da aula de Criminologia e por alguma razão, essa memória me veio à cabeça.
Cheguei por volta de 16:00, tivemos um pequeno probleminha técnico na hora de entrar aquele lugar, digamos que implicaram com minha cara de terrorista.
Você foi andando por aquele lugar bonito, verde e grande, me mostrando seu habitat, por uns anos da sua vida você até chegou a morar lá de fato (foram dois anos?!)
Fui andando por aquele lugar bonito, verde e grande, conhecendo seu habitat, relativamente maravilhada, traçando passos que você já muitas vezes traçou, feliz de conhecer mais uma parte de você (mesmo que você não exatamente frequentava as aulas daquele lugar, pelo que eu entendi haha)...
Foi um dia muito simbólico pra mim.
E aí você me apresentou pra aquele seu amigo que fica sentado naquela mesa, no prédio que se eu não me engano pegamos o elevador apertadamente íntimo pra biblioteca. Qual era o nome desse amigo falante? Puxa esqueci! Mas vou lembrar antes de postar esse texto. Shmulik? Não... Esse é o nome do prisioneiro que o Josh (professor de Criminologia) tava contando sobre, um prisioneiro que havia sido released e pouco tempo depois deu as caras de novo.

 ? שמוליק, חזרת - disse meu professor quando viu o tal sujeito chegando...

Enfim.
Agora já não estou mais na aula de Criminologia, estou em casa.
Qual era o nome dele? Queria muito lembrar... ok.
Enfim, subimos no elevador pra biblioteca de יהדות, colunas gigantescas de livros empoeiradamente acumulando sabedoria. Você se sentou, eu me sentei ao seu lado. De vez em quando eu dava umas espiadinhas pra ver como é que meu amor estuda, tenho que admitir que tenho um certo tesão em ver você estudando e se concentrando e lendo e amassando seus cabelos sem perceber e mordendo seus lábios aqui e ali.
Ter que me controlar em espaços públicos também me dá tesão. A minha vontade era te puxar pra perto e sentir seu corpo quente no meu.

Mas como a intenção desse texto nunca foi ser um texto sobre vontades corpóreas, mas sim apenas relatar de maneira pura e inocente uma memória que me pousou à cabeça, seguirei no meu empreendimento.

Em certo momento ficamos com fome, saímos daquela mansão acadêmica e fomos comer sushi. Era sushi?
Estou me confundindo.
Ah, porque fui no Bar Ilan duas vezes. Uma delas, acho que na última, eu peguei apenas café e talvez alguns cookies, e nos sentamos dentro daquele espaço do Aroma onde conversamos sobre questões tangentes a casamento, um pouco da halacha desse tema, e algumas coisas de maneira abstrata e deslocada de nossa realidade.. Ah e também lembro que comentei de como eu não exatamente concordo com a fala da Valeria, de que num relacionamento, é importante que o homem ache a mulher atraente, e pra mulher, é importante que ela sinta que admira o homem.

Mas na primeira vez que fui no Bar Ilan, e é dessa vez sobre a qual minha memória se trata, nós pegamos sushi e voltamos pra faculdade, sentamos num banquinho de frente pras árvores de azeitonas retorcidas,
azeitonas retorcidas? Não, as árvores eram retorcidas. OK
Logo mudamos de banquinho porque havia muitos bichinhos voadores nos incomodando e se infiltrando no nosso sushi.
Voltamos a estudar, já não lembro se foi dessa vez ou da outra que fomos estudar na biblioteca de economia, uma mais arrumadinha.

E depois fomos pra sua casa.
Andando.
Gostoso andar, área gostosa.
E no caminho, ao sair do bar ilan, passamos por uma árvore cheia de passarinhos cantando histericamente.
E andamos até sua casa.
Yonathan Netaniel?
Não.. como era o nome mesmo? Quero lembrar sozinha. E também lembrar o nome do moço falante da faculdade.
To me segurando MUITO pra não olhar o nome nas nossas conversas de whatsapp..
OK

Chegamos na sua casa.
Subimos.
Você morava no 11, 12, algo assim? Lembro que vi esses números nas portas quando abriu o elevador. Acho que eram seus vizinhos de porta mesmo.
Sofá vermelho.
Nechama Leibowitz.
Pão de queijo, if I am not mistaken.
E o resto é história.
Foi uma noite interessante.

Pode ser que estou me confundindo entre os elementos dos dois dias no qual fui no bar ilan te visitar.
Porque um desses dias, voltamos e a Sarinha e sua mãe estavam lá, e claramente não foi nesse dia que nos divertimos no sofá vermelho e depois na cama gostosamente grande.

Espero que você se encontre na confusão da minha memória.


Agora.
Momento presente.


Sinto saudades. Já é até clichê dizer isso, coisa sem graça.
Sinto que não te vejo a mais tempo do que o tempo que te conheço, se é que isso é logicamente possível. Dentro da mente humana, tudo é possível.
Já me acostumei a te acessar somente pelo pensamento, por mensagens, por telefone, pelo blog. Acostumei que nada! Não aguento mais. Isso não é real.
Mas hoje não to brava ou frustrada que nem aquele outro dia em que escrevi no blog sobre isso. Estou apenas constatando os fatos, até com uma certa pitada de humor, porque de tão escroto seja a ser cômico.
Termino por aqui







terça-feira, 12 de novembro de 2019

Nem sei

Se me dissessem que já faz um mês que não te vejo, eu acreditaria. E que fazem três meses, eu também acreditaria.
Não é possível que você se foi, faz, ...
Hoje é terça, você se foi na
Enfim não me importa saber
O que acontece é que a minha percepção de tempo tá toda zuada, me sinto distante de você em todos os sentidos possíveis, tá difícil pra mim, tá estranho.
Ficamos 45 dias sem se ver, depois te vi umas 3 ou 4 vezes, e depois você foi embora. É como se essas 3 ou 4 vezes do meio não tivessem existido, faz anos que não te vejo.
Já não lembro o que é estar dentro do seu abraço, já não lembro qual a sensação de tocar nas suas mãos, já não sei o que é conversar com você ao meu lado me olhando (no olho!)... Já não sei o que é abrir a porta e te ver, poder chorar e você estar do lado pra me acolher, estar no mesmo fuso que você, o que é poder chegar em casa cansada e te abraçar e me sentir calma e feliz dentro do seu abraço.
Já não sei...
Me dói! E me frustra.
Nem sei porque puis um ponto de exclamação na linha acima, se não é esse meu tom no momento.
O meu tom é cinza e estranho, nem sei se o nome do que sinto é saudades.
A distância dilacera.
Dilacera mesmo, dilacera fundo.
Já não tenho forças para doer.
As lágrimas brotam nos meus olhos enquanto escrevo, minha garganta se retorce em nós que raspam e incomodam, meu peito tenta desesperadamente se expandir e respirar, mas não consegue e se sufoca.
Mas nada disso importa, nada disso adianta, nada disso muda nada.
As lágrimas, as palavras que agora escrevo, as mensagens de voz no celular, nada importa, nada é real, tudo é tentativa ridícula de acessar você, de me expressar pra você, de me sentir próxima de você.
Só queria poder agora olhar nos seus olhos e ver seu sorriso, escutar sua risada, ver você elaborando sobre algum tema, dissertando sobre algo bonito do mundo.
Esse texto é em vão, esse blog é quase em vão, tentativas ilusórias de trafegar num mar que nunca chega até você, nunca chega até o porto, as águas me consomem, me afogam, já não respiro, me sufoco.
Não importa a hora do dia, o que tenho ou não tenho que fazer, o mundo se tornou estranho, quase alheio, ele não sabe o que eu sinto, a confusão emocional que se passa dentro de mim, quero falar com você mas ao mesmo tempo não quero, não consigo, me sufoco, me afogo numa mistura de saudade, amor, cansaço de tanto esperar, desesperança, dormência, falta de fôlego.
Me faltam palavras.
Tudo bem, nem preciso delas.
Elas não me servem de nada


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Fate e faith

Um tema que tem voltado pra mim nos últimos dias é o tema da sorte, nós conversamos sobre isso na sexta, aliás depois quero ouvir o que você tem pra falar sobre o amor!

Ontem conversei disso com a sarinha, eu disse que voltar da festa, depois de presenciar toda aquela insensibilidade da lari e ir ao teu encontro - mesmo que whatsapiano - me fez sentir o cara mais sortudo do mundo, fui de um oposto ao outro. E o pior de tudo, eu disse, é que foi ela que terminou, não foi nem minha escolha, impressionante como tenho sorte, dá até arrepio pensar nisso.
Tudo na vida parece por um fio, essa é a sensação que tenho tido ultimamente.
A sarinha disse que devo agradecer a hashem. É verdade. Se tem uma coisa que eu sinto que pareço com o Yossef bíblico é nisso, ele tinha sorte onde quer que ele ia, deus estava sempre o acompanhando, na casa de potifar, na prisão, na ong, raquel, exército, deus sempre tá lá salvando. Tudo que eu faço, pode ser a coisa mais louca do mundo, eu acho que se eu to fazendo vai dar certo, porque tem alguém atrás querendo que eu tenha sucesso.

Por isso naquela noite de insônia onde eu me senti sozinho sem deus nem nada eu fiquei desesperado. A vida tem seu jeito poético de ser (deus?) e foi justo nessa semana que eu te conheci. Eu levo isso muito a sério, sinto que você foi a resposta àquele meu sentimento. Você apareceu e recebi um acolhimento que eu nunca tinha recebido antes, esse sentimento ainda é novo pra mim e eu não tenho certeza que sei como lidar 100%.

Mas tudo isso me dá arrepio, me sinto fora do controle, ainda sinto que é tudo por um fio. E se deus virar as costas?

Logo que cheguei peguei um uber e o cara começou a me contar como a vida é frágil. Ele morou em pernambuco 3 anos e duas vezes loucos abordaram ele no trânsito. Uma vez ele só gesticulou um xingamento para um cara que o fechou e o cara saiu do carro com arma e veio na janela do carro apontando a arma, indo tirar satisfação. O homem armado era policial aliás, ele tinha distintivo mas tava sem uniforme, o nosso querido motorista acha que saiu dessa vivo dessa por estar naquele momento com uma camiseta da escola militar lá do bairro. Tudo dependia do humor daquele cara armado, da camiseta que ele usou naquele dia, tudo tão terrivelmente frágil.
Contei pra ele uma história do meu pai que me chocou muito quando eu ouvi a primeira vez, que foi nesse ano aliás. Meu pai tinha 30 anos e estava de carro deixando o seu date na casa dela. Vieram dois bandidos armados, mandaram a menina ir pra casa e tiraram meu pai do carro. Um deles cismou que ia atirar no meu pai, ou como diria meu pai, encasquetou que queria me atirar, ele tava visivelmente drogado, o outro falou que você tá louco, deixa ele ir embora. Meu pai foi embora caminhando pelas entrelinhas da brutalidade do destino. Dessa vez que ele decidiu ir conhecer israel pela primeira vez. Mas isso é outro assunto.

Um dos filmes que eu mais gosto aborda esse tema. Eu amava esse filme mesmo antes de me tocar que ele abordava esse tema. Lá o vilão é um psicopata com vocação para filosofia e toda vítima que ele escolhe, ele pede para esse vítima jogar uma moeda e escolher cara ou coroa. Se a pessoa acertar, ela vive, se ela errar, acontece, é o destino. Vou te mandar um link de uma cena que é uma das minhas cenas preferidas de todo o cinema, uma época eu sabia ela até de cor.

https://www.youtube.com/watch?v=OLCL6OYbSTw

Às vezes eu me sinto como yaakov, que diante de tantos presentes de deus ele diz קטונתי, me apequenei com todos os teus presentes e agora acabaram-se os meus méritos. Mas a raquel protegia ele né, raquel querida.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

É impressionante como você se foi faz tão pouco tempo e eu já sinto saudades. Aquela saudades de verdade.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Quem sabe sou mais Álvaro de Campos?

[17:29; 21:09... infinito]

Nessa tarde cinza e densa, encontro um respiro na poesia com a qual me deparei na estante do corredor da casa da minha tia. Digo que encontro um respiro, não porque eu estivesse sufocada e precisando respirar, mas porque qualquer encontro com a poesia convida aquele que passa a respirar um ar fresco e novo de palavras que fluem como a água do rio.
Pois bem, me deleito nesse momento com esse maravilhoso e enorme volume de Álvaro de Campos. Por um instante me detenho.
Me detenho e penso que talvez, abrindo-o, estarei sendo entregue aos feitiços desse heterônimo, o que é perigoso pois ele pode de pronto me seduzir com seu lirismo angustiadamente irônico e me amarrar a ele. E talvez eu nunca mais consiga me desprender de suas garras friamente poéticas, e confesso que gosto que tais garras me agarrem com todo seu vigor poético e não me deixem escapar. 
Me detenho porque meu coração é Alberto Caeiro. 
Respiro Alberto Caeiro.  
Tento viver na prática a filosofia de Alberto Caeiro, seu estilo de vida simples e direto, abstratamente concreto.
No passado, emprestei doses de Alberto Caeiro para servir como antídoto para muitas de minhas crises e divagações mentais aflitivas. Hoje, engulo de uma vez a dose inteira, me banho com fartura nas suas águas e bebo de sua fonte.
No futuro, quem sabe que dose tomarei, e em qual quantidade? Não cabe a mim pensar nisso agora. O amanhã não é certo, ele inexiste, assim como o sopro do segundo que acaba de se esvair e virar passado. O presente é uma centelha de vida, e ele dura o suficiente para percebermos que ele já se foi.

Pois bem, como eu dizia...
Me detenho porque meu coração é Alberto Caeiro. 
Não posso nem ousar espiar pelas páginas de Álvaro de Campos, não sei o que me aguarda lá dentro, quem sabe serei sugada, devorada por seu modo irreverente e irônico de ser? Quem sabe seu ceticismo me seduza a ponto de eu não saber mais o que é crer em qualquer coisa? Eu que creio em tanto... Eu que creio mesmo sabendo que minha crença talvez não passa de uma ilusão e consolo, de uma tentativa infantil de imbuir de sentido o que não tem, de respingar com cor essa tela cinza de mundo...



O sol se pôs, as estrelas tentam brilhar por debaixo desse véu urbano poluído. Agora o relógio já marca 21:10. 
E eu sigo aqui, nesse meu oásis virtual, única superfície de contato que tenho com você, Yossi, até domingo raiar...
Veja bem, ´´superfície´´, termo propositalmente empregado para traduzir a bidimensionalidade escrota de tal contato.

Como eu dizia...

Por um instante me detive.
Mas logo no instante seguinte, de súbito abri o livro e mergulhei nele como quem mergulha num mar densamente azul e cheio de corais dos mais variados tons e texturas...
Primeiro, como me é de costume, folheei algumas páginas com minhas mãos, que escorregavam cheias de prazer pelas linhas, sentindo a energia que emanava daquelas várias palavras. 
Logo voltei a fechar o livro como quem fecha uma abertura escondida de um túnel secreto por guardar mil tesouros. 
Fechei o livro para novamente olhar, dessa vez de forma mais atenta, sua capa, contracapa, absorver essa interface entre o livro e o mundo, afinal o mundo só chega a ver e tocar a capa e a contracapa. Poucos são os que tem a sorte ou a coragem de abrir um livro e se deixar levar pelo que ele propuser...
Segurei o livro junto do meu peito como quem segura um bebê risonho e misterioso, abracei-o como se ele tivesse vida e pudesse me abraçar de volta.  E de fato vida tinha, pois me retornou o abraço.
Tornei a abrir o livro, dessa vez com mais fome e vontade, pronta pra me entregar. 
E ao me entregar, ele me envolveu com suas linhas atrevidas, pessimistas, intimistas, futuristas, melancólicas, paradoxais... 


Meu amor!
Sinto um pouco de você nessa poesia... Há muitos traços teus que rimam com a poesia do Álvaro de Campos. Isso é especial. Você acha especial? 

Eu poderia escrever muito mais aqui, porque os sentimentos e pensamentos são vários, e que delícia é poder compartilhar com você. Mas vou te poupar de ler uma bíblia e vou me limitar por aqui, te deixando com um excerto de um dos poemas que mais me tocam e pelo qual o Álvaro de Campos é mais famoso (não que essa segunda informação importe). 
Espero que você goste!
Depois me conte :)

TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.




terça-feira, 22 de outubro de 2019

Sedaduas

[O que é o tempo?]

Oi!
Oi meu amor!
Faz tempo que não escrevo por aqui, e agora sinto saudades tanto de você quanto daqui. Mas a daqui é fácil de matar, é só abrir o computador e escrever ou ler algo nessa coisa querida que criamos e que suspeito que nem exista no mundo real. Já a saudade de você, tenho que pegar um avião pra matar. Enquanto não o faço, ela própria é quem me mata lenta e tortuosamente, e simultaneamente quem me faz reviver magicamente em universos paralelos e variados. 

De fato sinto saudades de você.
Sinto.
Sinto com todo meu corpo, com todo o meu pensamento, e até mesmo com toda a minha alma. 
Sinto no peito, nas mãos, nos lábios, na pulsação.
Sinto nas noites em que não tenho quem abraçar,
nas manhãs que desperto para o lado e me deparo com o nada.

É interessante experienciar quantas dimensões e tons diferentes a minha saudade pode adquirir. Nunca me entendio, porque a saudade que sinto de você sempre se reveste de nova cor e vem bater à minha porta vestida de novo traje, diferente do que era ontem, diferente do que fora a um minuto atrás. E assim ela me mantém entretida, até que você, na sua tridimensionalidade, possa me entreter como eu venho sonhando todas as noites. 

A saudade...
Às vezes ela vem de fininho quando eu menos percebo, e quando vou ver, já se instalou dentro de mim e se apossou do meu ser, sem pedir permissão para me adentrar.
Às vezes ela chega invadindo, sem nem tentar se disfarçar, e me carrega pra dentro dela até eu não poder mais chorar.

A saudade...
Me prende, me sufoca.
Me liberta, me alivia o peso da solidão.
Me faz companhia, é minha melhor amiga,
Me faz me sentir sozinha nessa imensidão.

A saudade...
Às vezes safada, me inflama pra dentro dos seus beijos longos e demorados, roçando nossos corpos molhados e quentes.
Às vezes carinhosa, me carrega pra dentro do seu abraço apertado, onde sinto ter encontrado terra seca depois de um navegar sofrido. 
Às vezes cruel, me obriga a chorar lágrimas azuis de tristeza, me afogando num infinito mar azul.
Às vezes companheira, passeia comigo por onde eu vou, escreve versos comigo, lê livros comigo, assiste os filmes que assisto, pensa, sorri, come, tudo comigo, e no cair da noite, se enrola em volta de mim até adormecermos juntas e nos entregarmos para mais uma noite fria.

A saudade...
Me consome, como fogo que arde sem se ver.
Me engole, me mastiga, me cospe.
Me traz leveza, me inunda numa nuvem branca de paz densamente leve.
Me permite ser, estar e sonhar.

A saudade...
Me leva pra mundos distantes, ilhas imaginárias de amor, braços abertos a me encontrar.
Me lança pra dentro de si mesma, me gira como num redemoinho, do qual não sei escapar. 
Me carrega no colo, me faz confessar, que não tem mais jeito de dissimular.
Me taca num beco escuro e vazio, longe de qualquer possível luar. 

A saudade desperta comigo com todo nascer solar, 
E dorme embalada no meu corpo com todo nascer lunar. 
Em todos os meus versos, em todos os meus passos,
Em todos os meus humores, em todos os meus retratos,
Ela encontra uma maneira de se infiltrar, e ficar.

E ficar...

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Como minhas palavras hoje não conseguem expressar a magnitude daquilo que sinto, te deixo com algumas poesias de pessoas que traduzem em linguagem clara a turbulência ilegível do meu coração.
Principalmente esse da Clarice Lispector descreve muito o que eu sinto e me dá muito alívio o fato de ela ter conseguido transcrever esses sentimentos intensos em palavras precisas.

Sentimento urgente – Clarice Lispector

Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco
Quer-se absorver a outra pessoa toda
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.



Chega de saudade – Vinicius de Moraes

Vai minha tristeza
E diz a ele que sem ele não pode ser.
Diz-lhe numa prece
Que ele regresse
Porque não posso mais sofrer.
Chega de saudade
A realidade é que sem ele
Não há paz.
Não há beleza,
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim.
Não sai de mim,
Não sai.
Mas, se ele voltar
Se ele voltar, que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca.
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços.
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim.
Não quero mais esse negócio
De você viver assim.
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim…

(nessa música modifiquei de ´ela´ pra ´ele´ porque você é meu leitor)










quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Sucá do Rebe

No dia de yom tov o Korich quis ir para o minian chabad. Tem livros, perguntei, deve ter, respondeu. Chegando lá saí catando livros, só livros chabad, não entendo nada, não tenho o que ler.
Peguei um livro de sichot do Rebe e encarei o desafio. Algo de sucot.

A sichá era de 1979. Em idiche traduzida pra hebraico. Vamos ao pouco que entendi de lá dentro.

Está escrito "e nas sucot vocês vão sentar". Mas sucá é bechinat mekif e sentar é bechinat pnimit! Essa era a primeira pergunta. Não entendi. Li e reli, pensei e despensei: mekif (em português "envolve") é algo de fora, algo que vem pra gente do ambiente externo, entrar na sucá não é algo interno, existe algo que vem de fora, no ar da sucá, assim como o shabat, existe algo na natureza do dia, asseret yemei tshuva a tshuva funciona mais do que em outros dias porque nem tudo vem dentro. Pnimit seria algo que vem de dentro. Depois o Rebe fala que sentar é algo que vem de dentro da gente, algo que entendemos ou sentimos, tshuvá de dentro, receber o shabat antes, etc... Ele traduz os dois termos para conceitos intelectuais: mekif é emuná e pnimit é entender as coisas. A sucá seria mekif ou pnimit? Emuná ou sechel (intelecto)?

Percebi também que as sichot dele tem uma configuração interessante: ele nos afoga com perguntas e responde tudo no fim com uma idéia só.
Segunda pergunta: Sucá tem o conceito de paz bem forte, haviam os 70 korbanot em nome dos 70 povos, temos o termo sukat shelomecha, sucá era pra todo mundo sentar junto. Por quê? Por que justo em sucot? O que tem de especial em sucot pra comparar com paz?
Teceira pergunta: Qual a relação de lulav com sucot? Eles foram ordenados no mesmo dia por quê? A torá não conecta os dois claramente mas existem dinim que conectam os dois, por exemplo, a brachá de lulav deve ser feita na sucá.

Tem mais umas perguntas mas vou direto à idéia...

Você entra na sucá como mekif, algo que você entra dentro e absorve o ambiente, a sucá vem como emuná, você entra lá sem entender nada, depois a sucá te permite entender as coisas a fundo, intelectualmente.
Por quê? A sucá junta todo mundo sob o mesmo teto, ela representa paz, paz traz verdade.
Como? Juntando opostos, juntando contradições, as 4 espécies, que representam tipos diferentes de pessoas, são colocadas juntas e a gente chacoalha elas! Vamos chacoalhar e ver o que sai. A sucá tem a capacidade de colocar vários opostos no mesmo liquidificador e como resultado ela libera a verdade. As coisas ficam claras depois de juntarmos todas as diferenças. A paz traz a verdade.

A paz traz a verdade ou a verdade traz a paz. Tanto faz?

O Rav Kook em Olat reia, seu pirush do sidur, na parte de "talmidei chachamim marbim shalom baolam" fala sobre esse conceito. Ele diz que a princípio pensaríamos que a verdade e a paz são conceitos opostos, porque afinal, se eu defender a minha verdade até o final eu não vou ter paz com o meu oponente. Mas não! A verdade só vem quando a gente pega variás ideias contraditórias e cada uma reflete seu lado da verdade. Por isso os chachamim trazem a paz, porque eles mostram como cada um traz seu lado da verdade, cada um está com a verdade parcialmente. Ir atrás da verdade traz paz e sabe o quê? A paz traz a verdade tambem.

Um parentesis sobre a idéia do Rav kook:

O professor de filosofia no Bar Ilan Avi Sagi, escreve um livro chamado elu veelu, em nome da famosa fala de chazal "elu veelu divrei elohim chaim" (quem tá certo beit shamai ou beit hilel? Deus responde que elu veelu), esse livro analisa o conceito de pluralismo no judaísmo, ele divide as opiniões do judaísmo em 3: A monista, a harmônica e a pluralista. A monista é dizer que só tem uma verdade e o resto tá errado, elu veelu simplesmente quer dizer que eu tenho que tolerar o outro mas ele tá errado. defensores da monista são em geral os rishonim: rambam, ritba, etc. A pluralista é dizer que todas estão certas na mesma medida, nenhuma está errada. A harmônica diz que cada um está certo em parte e errado em parte, cada um reflete uma parte diferente da verdade, em uma intensidade diferente. A verdade é um sofisticado prisma refletindo em várias cores e de vários ângulos. Nesse grupo o prof Avi Sagi coloca o Rav Kook, o Maharal, etc.

A princípio o Rebe parece fazer parte do grupo da verdade harmônica. E a sucá é um catalisador dessa verdade.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A voz da Raquel

Hoje você estava comigo no ônibus, no piquenique, no trabalho...
Eu não conseguia desconectar meus ouvidos de você, você tava falando com aquela voz que eu amo.

Qual voz que eu amo?
A voz indignada da raquel,
Reclamando das saudades,
Que esse celular não ajuda em nada
(mas na verdade ajuda né,
desculpa celular,
desculpa o caralho)

Que tem essa distância,
no tempo,
no espaço
e em qualquer dimensão que você quiser,
menos no amor.
Mas po o amor não é suficiente,
quero o espaço-tempo também.
A tridimensionalidade.

Sem querer ofender o amor,
mas ofendendo,
O amor é legal mas pelo amor de deus né.

Deus né.

A voz da raquel espiritualizada,
Hesitante, leve e cantada.

Cantada né.

Aquela cantada que ela dá quando eu tiro o óculos.
Com aqueles cabelos me fazendo carinho.

Aliás, e esses óculos aí?
Quando é que você vai trocar esse óculos menino?
Como eu posso saber que você tá me vendo?
Não falo mais com você, você não tá nem me vendo, puxa.
(Muito louco isso,
não tenho como saber o que você está vendo,
você pensa nisso às vezes?
É uma loucura se você for pensar)

Desde netanya que você disse que ia trocar!
Lembra de netanya?
Antes de eu ir pro brasil.



Brasil né!!!!

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Naquele momento era só eu, a música e você.

Se conseguir, põe a música ´´Mora na filosofia´´ pra tocar enquanto lê ...


~Mora na filosofia~


...Re-versando…


Acho que já não nos cabe a decisão…


Botei na balança,
Você despencou
Botei na peneira
Você transbordou


Não há balança ou peneira que te contenha,
Então venha se des-conter no meu amor.
Aqui não cabe contenção.


Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor?
Mora na filosofia,
Pra que rimar amor e dor?


Mesmo se teu corpo não ficasse marcado,
Por lábios ou mãos carinhosas,
Eu saberia,
Que no teu corpo eu pertencia.


Não vou me preocupar em ver
Nosso caso não é de ver, é de ser
Tá na cara.

___________________________
Reversei a música acima no dia 13 de Junho (dia em que nasceu Fernando Pessoa, não que isso importe haha), sentada no banco que dá de frente pro gramado central da IDC. Era época de provas, e se não me falha a memória, eu estava naquele dia imersa na biblioteca estudando pra minha primeira prova, de teorias da personalidade.
Eu saí da biblioteca pra tomar um ar, me sentei nesse banquinho, e me vi tomada por uma paz muito forte, ou nas palavras do meu diário daquele dia,

´´Vejo a realidade como quem observa uma realidade distante.
Sinto-me absorvida no meu próprio mundo, na minha própria poesia.

Várias coisas já não me importam.
Me importa só estar.
E sentir toda essa bagunça gostosa de sentimentos.´´

Você tinha acabado de viajar pra NY e as saudades já permeavam meu ser. Poucos dias atrás, você tinha me apresentado a música ´´Mora na Filosofia´´, e eu estava viciada nela... Naquele dia não foi diferente. Ouvi aquela música umas 20 vezes, sentada naquele banquinho da IDC. Lá edifiquei meu próprio casulo de paz e luz, onde a realidade externa de provas e estresse não me atingia. Quem passasse por mim deveria pensar que eu estava sendo abduzida por alguma luz de algum mundo imaginário, pois um sorriso bobo preenchia meu rosto enquanto a música tocava em voz alta a minha volta. Eu tava nem aí com quem passava e ouvia, com quem passava e me via naquele estado hipnótico.
Naquele momento era só eu, a música e você.

E se naquela época, há 4 meses, meu amor por você já ´´tava na cara´´, como diz a música (eu sei que a música original não é exatamente uma história tão feliz como a que eu reversei), e eu sentia que já não nos cabia a decisão, no sentido de que já não nos cabia o freio sobre tal amor... então agora, tendo colecionado mais alguns tempos preciosos ao teu lado, já nem sei o que dizer...
Esse amor se alastrou por dentro de mim como labaredas de fogo laranja vivo, e toda eu ardo de vontade de você.




domingo, 6 de outubro de 2019

O fez esverdear

[Não importa o horário. Hoje não me guio pelas horas, mas sim pelos sentimentos. O tempo não existe, é uma doce ilusão daqueles que têm esperança]

Sinto meus olhos tornarem-se azuis
Por debaixo das minhas pálpebras cansadas.
A lágrima atravessa, lentamente, meu rosto,
E me provoca com suas cócegas salgadas.
Tenho imensa vontade de estancá-la, secá-la,
Mas me contenho e deixo percorrer-me a gosto,
Livre e leve, foi o que ela queria ser ao se libertar.
Navegar livremente pelo rosto do meu triste mar,
E finalmente encontrar minha boca para se abrigar.

O céu que agora paira sobre nós é o mesmo,
Infinitas estrelas de sonhos e saudade. 
Mas se nessa noite você olhou para cima, 
Viu que o céu está colorido de tom diferente,
Pois hoje contém discretos resquícios de verde.
Você não sabe quem está por trás deste pintar, 
Já que você não esteve aqui para testemunhar,
Foi meu verde quem desaguou no azul do céu, 
E emprestando-lhe um pouco do azul,
O fez esverdear. 

sábado, 5 de outubro de 2019

Minha cama em Jerusalém

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

(Álvaro de Campos)

Eu lembro de 2013.
Nesse ano eu comecei a me perguntar o que esse poema condensa de maneira tão perfeita.

Eu lembro de transitar pelo facebook e observar as pessoas. 
Uma foto com um jogo da velha dizendo 
fun sun beach vibes, 
porque afinal, 
um idiota em inglês, 
se é idiota, 
é bem menos que nós. 
Outra declarava que todo mundo era idiota, 
a onu era idiota, 
e quem estava certo era um vídeo de hasbará 
onde todas as verdades eram explicadas em dois minutos, 
ah! 
como ninguem percebe o que eu percebo!!

Eu, 
diante daquela plataforma de vergonha alheia, 
me declarava o ser mais inteligente do universo. 
Isso me incomodava.

Ok, então todo mundo é idiota e você não.
Por quê?
Ah porque eu estudei na yeshiva e isso me fez me interessar por estudos em geral e comecei a estudar.
Ok, então é por causa da yeshivá, que que você tá se achando?
Mas na yeshiva tambem tem pessoas idiotas, nem todos começaram a estudar.
E por quê você sim?
Não sei, talvez por causa da educação em casa...

Comecei a me afogar nessas reflexões,
Tudo que eu era diferente eu me perguntava o porquê.

Isso me causou uma crise tremenda.
Eu não tenho mérito nenhum,
Sou o fruto do que me fizeram.
(Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram.
E esse intervalo? Não existe!)

Ah mas tem coisas que ninguém me causou, são minhas e pronto.
A inteligência ou uma parte dela,
A personalidade ou uma parte dela,
São coisas que vieram de mim.
Ah mas são genéticas! 
Não são mérito meu.
(Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Metade desse intervalo vem de coisas da vida, biológicas talvez)

Entre eu e minhas influências não há nenhum espaço
Que claustrofobia
Preciso de ar, 
Me dêem o espaço que eu nunca vou ter.

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.






Pós afogamento

Cá estou depois de várias horas só de raquel,
lendo sobre a raquel,
falando com a raquel,
ouvindo a raquel,
sentindo a raquel!

Droga...

Ela não está aqui.
Penso em como são os seus olhos,
fixos e abertos,
olhando para mim e para minhas ideias,
captam tudo,
ficam se mexendo pra lá e pra cá,
vibrando alegres,
ficam aguados,
azuis.

(deus aos olhos da raquel perigo e abismo deu,
mas foi nele que espelhou os céus.
Já falamos disso, não?
Claro claro.)

Claro?
Não!
Fica tudo nebuloso na minha mente.
Eu fico pensando
Como é a raquel?
Como é a cara dela?
Me desenha vai.
Minhas mãos não desenham,
Tenho duas mãos esquerdas.

(sem ofensas a minha querida e amada canhota)

Então tento desenhar na mente.
O que vejo?
É a raquel?
Sim
É ela?
Sim!
É a raquel!
Mas ela é nebulosa,
É ela mesmo?
Eu não tenho uma foto dela na minha cabeça,
O que estou vendo então?

No shabat eu só tenho acesso a raquel da minha cabeça,
certeza é ela caramba,
mas não sei o que vejo,
não vejo uma imagem.

Vejo os seus cachos,
ah! Isso eu vejo sim,
Mas não são seus cachos físicos,
eu vejo suas cachezas,
isso sim,
Não vejo seus olhos,
Não vejo seu olhar,
mas vejo seu azul,
isso sim.

Então fico todo azul,
Por te ver e não te ver,
Por saber que tem certas dimensões tuas que estão comigo,
Mas algumas não estão
E só estarão
Em menos de um mês po!
Em menos de um mês, tá bom.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Minhas anotações baseadas na palestra sobre suicídio

[Não se sinta na obrigação de ler ou responder, sei que tá longo e talvez não te interesse muito, mas quis compartilhar!]

Luto por suicídio e a clínica com pacientes com ideação suicida

  • Prof. Dr. Marcelo Sodelli, fenomenólogo hermenêutico, docente do curso de Psicologia da PUC-SP (pesquisador no campo de Suicídio).
  • Profª Drª Maria Helena Franco, Professora Titular da PUC no Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Clinica e fundadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto – LELu, da PUCSP.
_________________________________________________________________

  • O suicídio como fenômeno irreversível
  • Necessidade de compreender o suicídio inserido num contexto de mundo pós-moderno.
  • O que nós sabemos sobre o suicídio?
    • Só o antes, e não o fenômeno em si.
    • Não sabemos o que é a morte em si, só podemos saber o que é a vida.
      • Visão de Heidegger sobre a morte
  • Perguntas que o paciente pode fazer dentro do espaço clínico:
    1. Qual é o sentido da vida?
      • O paciente, ao perguntar isso, de fato espera uma resposta por parte do terapeuta → Causa angústia no terapeuta
    2. Sempre é possível superar um sofrimento?
  • 3 dimensões para entender como se dá o fenômeno do suicídio
    1. O mundo
    2. O eu
    3. O outro
  • Diferentes visões acerca do suicídio, dependendo da época e contexto → Mostra que nem sempre o suicídio é visto como algo ruim e errado
    • Grécia antiga: Suicídio como ato de honra e demonstração de coragem, um privilégio do homem
    • Hoje em dia: Suicídio como fuga (alguém tentando fugir de seus problemas), ato de covardia, visto como patologia
  • Nietzsche: ´´Deus está morto´´ (A Gaia Ciência, 1882)
    • Essa frase condensa o espírito da época: distanciamento da religião, niilismo 
      • Perigo do niilismo: A morte de Deus deveria trazer uma liberdade nunca antes vista, mas estamos perdidos, não sabemos para onde ir e nem o que fazer com isso. → A falta de um referencial externo traz desespero → o homem procurará novos deuses = razão, humanismo, ciência, leis.
      • A fé virou razão, a dona da verdade é a Ciência, nossa nova religião é o progresso do homem. 
    • Ao realizar esse statement, mostra-se uma mudança de paradigma.
      • Agora, temos um novo Deus, que não está ligado ao sagrado, mas sim à ciência. Usamos a ciência para preencher o espaço que antes Deus e os valores transcendentais preenchiam.
        • A ciência tenta entender e explicar os fenômenos, para alcançarmos um controle e domínio sobre tais fenômenos. 
          • Como dominar o fenômeno do suicídio?
        • A ciência hoje casou com o capitalismo, buscando o capital.
          • Só áreas que dão retorno ganham investimento. 
            • Ex. A área da tecnologia 

  • Hoje, o mundo é movido pela tecnologia e pela técnica.
    • A experiência foi substituída pelo experimento.  
    • A sociedade de hoje é movida pela técnica, pelo desempenho, pela performance.
    • Perdemos a possibilidade da intimidade.
      • Facebook, instagram: publicamos a intimidade, pois publicar o que é público não tem graça, não rende likes. 
    • Não precisamos mais de chefes, nós somos nossos próprios chefes, nós mesmos mandamos na gente. 
  • Mundo virtual
    • Infinito, ilimitado
      • Ilusão de que a vida não acaba, de que não há resistência para a vida
    • Quem se torna usuário do mundo virtual também vai se tornando infinito, imortal. 
      • Suicídio interrompe a atemporalidade, indica que algo não está funcionando. É visto como patologia.

  • É difícil lidar com o suicídio, porque é um fenômeno que nos escapa 
    • Não é captado/detectado por escalas e questionários. 
  • O suicídio não tem uma causa, é um acontecimento.
  • Estatística: 90% dos suicídios são ligados a alguma patologia.
  • Depressão ≠ Tristeza ≠ Melancolia
  • Será que todo mundo que pensa em se matar, está deprimido?
  • Será que toda pessoa que se suicida, tem uma psicopatologia?
  • Será que alguém pode estar tendo um sofrimento psíquico e querer se suicidar sem necessariamente estar doente (ou seja, se suicidar estando em plenitude)?
  • Para dar fim a sofrimento físico
    • Suicídio assistido
      • Geralmente para pessoas que estão tendo um sofrimento físico (dores insuportáveis), um diagnóstico de doença terminal. 
      • A facilitação ao suicídio do paciente, onde o agente, normalmente um parente próximo, põe ao alcance do enfermo terminal alguma droga fatal ou outro meio parecido. → Portanto, o suicídio assistido exige que o paciente esteja totalmente consciente. 
      • Suicídio assistido vs Eutanásia
        • Suicídio assistido: realizado pela própria pessoa
        • Eutanásia: ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente com fins ‘’misericordiosos’’.
      • Legalizado na Holanda, alguns estados dos Estados Unidos, Alemanha e Suíça
        • No Brasil, tanto o suicídio assistido como a eutanásia são proibidos e considerados homicídios, e o praticante pode ser penalizado. 
    • Curiosidade: A eutanásia e o suicídio assistido eram muito praticados na Grécia e Roma antigas. Na cidade de Marselha, existia um depósito público de cicuta (veneno extremamente poderoso) à disposição de todos que querem se suicidar. Em Atenas, o senado tinha o poder absoluto de decidir sobre a eliminação de velhos e incuráveis, dando o conium maculatum- bebida venenosa, em cerimônias especiais. 
  • Alguém que pensa em suicídio, que traz esse tema pro espaço clínico, está livre ou não-livre?
  • A tentativa de suicídio pode ser um impulso. E às vezes, esse impulso passa. Mas às vezes não. 
  • O sobrevivente do suicídio é aquele que era próximo, de alguma forma, da pessoa que se suicidou. Por exemplo, a mãe de filho que se suicida é uma sobrevivente do suicídio.
    • A função do psicólogo não é perdoar o sobrevivente do suicídio, dizendo coisas do tipo: ´´Ah, tudo bem, você é uma pessoa bacana…´´. Em vez disso, o psicólogo deve ´´gastar´´ o assunto, conversar sobre, perguntar porque aquele sobrevivente se sente da maneira como se sente (culpado, triste, etc) → ´´Porque você acha que você não é uma boa pessoa?’’
  • Cometer suicídio está completamente relacionado com a sua compreensão de mundo.
    • Nem sempre envolve loucura, surto, impulsividade. 
    • Tem a ver com o sentido. Qual o sentido da minha vida? Qual o sentido do meu suicídio? → E é essa reflexão que pode levar ao suicídio, ou seja, nem sempre é uma motivação patológica. 
    • Porém em geral, a pessoa que se mata de forma serena não é a pessoa que está na clínica, porque essa pessoa tem certeza daquilo, ela está em paz com sua escolha. Tanto que essa morte é aquela que surpreende a todos, porque ninguém esperava que fosse acontecer. 
  • As mulheres tentam mais se matar, mas são os homens quem mais conseguem se matar. Ou seja, quem de fato se mata é mais o homem. → 4 homens para cada uma mulher.
    • Possíveis explicações
      • A mulher, na hora H, pensa mais na sua família (ex. muitas das mulheres em nossa sociedade são mães), enquanto o homem tende a pensar mais em si mesmo.
      • O homem é visto na sociedade como aquele que tem que ser agressivo, bem sucedido, então ele acaba empregando métodos mais violentos e agressivos de se matar, o que acaba tendo ´´sucesso´´. 
  • O psicólogo precisa entender quem é o paciente, quais as falas trazidas por esse paciente.
    • Quero sumir  ≠ Quero ser atropelado  ≠ Já planejei como quero me matar…
  • O Prof. Marcelo, na sua clínica, sempre faz uma espécie de ´´contrato prévio´´ com o paciente, dizendo que ele se dá o direito de avisar a família caso sinta que a vida do paciente está em risco. 
    • Porém, o psicólogo deve ser muito cauteloso nesse aspecto, e saber qual o momento em que a situação está de fato crítica o suficiente para avisar a família. 
    • Se em toda sessão, o psicólogo avisar a família que o paciente está pensando em suicídio, isso terminará a terapia, porque trará angústia para a família e a família irá dizer que não sabe lidar com a situação e que quer internar o membro em alguma instituição. 
  • Clichês ditos sobre o suicídio
    • ´´Quem fala não faz´´
    • ´´Tá tentando chamar atenção´´
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Se quiser entender um pouquinho mais da psicologia fenomenológica, a partir do ponto de vista do Marcello Sodelli que deu essa palestra, esses vídeos são bacanas!! Eu escreveria mais sobre o que eu penso de cada um desses vídeos/pontos que eu acho interessante sobre cada um deles, mas talvez é algo que não ''cabe'' no blog... Se você tiver interesse, me avisa e vou ficar feliz em compartilhar aqui no blog! Se não, eu deixo no meu diário mesmo haha 

https://www.youtube.com/watch?v=OBFl-KNcmHQ: O que é uma terapia de fato terapêutica?
https://www.youtube.com/watch?v=lc8xFy5ek8w: A temporalidade do terapeuta