[Não importa o horário. Hoje não me guio pelas horas, mas sim pelos sentimentos. O tempo não existe, é uma doce ilusão daqueles que têm esperança]
Sinto meus olhos tornarem-se azuis
Por debaixo das minhas pálpebras cansadas.
A lágrima atravessa, lentamente, meu rosto,
E me provoca com suas cócegas salgadas.
Tenho imensa vontade de estancá-la, secá-la,
Mas me contenho e deixo percorrer-me a gosto,
Livre e leve, foi o que ela queria ser ao se libertar.
Navegar livremente pelo rosto do meu triste mar,
E finalmente encontrar minha boca para se abrigar.
O céu que agora paira sobre nós é o mesmo,
Infinitas estrelas de sonhos e saudade.
Mas se nessa noite você olhou para cima,
Viu que o céu está colorido de tom diferente,
Pois hoje contém discretos resquícios de verde.
Você não sabe quem está por trás deste pintar,
Já que você não esteve aqui para testemunhar,
Foi meu verde quem desaguou no azul do céu,
E emprestando-lhe um pouco do azul,
O fez esverdear.
domingo, 6 de outubro de 2019
sábado, 5 de outubro de 2019
Minha cama em Jerusalém
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
(Álvaro de Campos)
Eu lembro de 2013.
Nesse ano eu comecei a me perguntar o que esse poema condensa de maneira tão perfeita.
Eu lembro de transitar pelo facebook e observar as pessoas.
Uma foto com um jogo da velha dizendo
fun sun beach vibes,
porque afinal,
um idiota em inglês,
se é idiota,
é bem menos que nós.
Outra declarava que todo mundo era idiota,
a onu era idiota,
e quem estava certo era um vídeo de hasbará
onde todas as verdades eram explicadas em dois minutos,
ah!
como ninguem percebe o que eu percebo!!
Eu,
diante daquela plataforma de vergonha alheia,
me declarava o ser mais inteligente do universo.
Isso me incomodava.
Ok, então todo mundo é idiota e você não.
Por quê?
Ah porque eu estudei na yeshiva e isso me fez me interessar por estudos em geral e comecei a estudar.
Ok, então é por causa da yeshivá, que que você tá se achando?
Mas na yeshiva tambem tem pessoas idiotas, nem todos começaram a estudar.
E por quê você sim?
Não sei, talvez por causa da educação em casa...
Comecei a me afogar nessas reflexões,
Tudo que eu era diferente eu me perguntava o porquê.
Isso me causou uma crise tremenda.
Eu não tenho mérito nenhum,
Sou o fruto do que me fizeram.
(Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram.
E esse intervalo? Não existe!)
Ah mas tem coisas que ninguém me causou, são minhas e pronto.
A inteligência ou uma parte dela,
A personalidade ou uma parte dela,
São coisas que vieram de mim.
Ah mas são genéticas!
Não são mérito meu.
(Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Metade desse intervalo vem de coisas da vida, biológicas talvez)
Entre eu e minhas influências não há nenhum espaço
Que claustrofobia
Preciso de ar,
Me dêem o espaço que eu nunca vou ter.
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Pós afogamento
Cá estou depois de várias horas só de raquel,
lendo sobre a raquel,
falando com a raquel,
ouvindo a raquel,
sentindo a raquel!
Droga...
Ela não está aqui.
Penso em como são os seus olhos,
fixos e abertos,
olhando para mim e para minhas ideias,
captam tudo,
ficam se mexendo pra lá e pra cá,
vibrando alegres,
ficam aguados,
azuis.
(deus aos olhos da raquel perigo e abismo deu,
mas foi nele que espelhou os céus.
Já falamos disso, não?
Claro claro.)
Claro?
Não!
Fica tudo nebuloso na minha mente.
Eu fico pensando
Como é a raquel?
Como é a cara dela?
Me desenha vai.
Minhas mãos não desenham,
Tenho duas mãos esquerdas.
(sem ofensas a minha querida e amada canhota)
Então tento desenhar na mente.
O que vejo?
É a raquel?
Sim
É ela?
Sim!
É a raquel!
Mas ela é nebulosa,
É ela mesmo?
Eu não tenho uma foto dela na minha cabeça,
O que estou vendo então?
No shabat eu só tenho acesso a raquel da minha cabeça,
certeza é ela caramba,
mas não sei o que vejo,
não vejo uma imagem.
Vejo os seus cachos,
ah! Isso eu vejo sim,
Mas não são seus cachos físicos,
eu vejo suas cachezas,
isso sim,
Não vejo seus olhos,
Não vejo seu olhar,
mas vejo seu azul,
isso sim.
Então fico todo azul,
Por te ver e não te ver,
Por saber que tem certas dimensões tuas que estão comigo,
Mas algumas não estão
E só estarão
Em menos de um mês po!
Em menos de um mês, tá bom.
lendo sobre a raquel,
falando com a raquel,
ouvindo a raquel,
sentindo a raquel!
Droga...
Ela não está aqui.
Penso em como são os seus olhos,
fixos e abertos,
olhando para mim e para minhas ideias,
captam tudo,
ficam se mexendo pra lá e pra cá,
vibrando alegres,
ficam aguados,
azuis.
(deus aos olhos da raquel perigo e abismo deu,
mas foi nele que espelhou os céus.
Já falamos disso, não?
Claro claro.)
Claro?
Não!
Fica tudo nebuloso na minha mente.
Eu fico pensando
Como é a raquel?
Como é a cara dela?
Me desenha vai.
Minhas mãos não desenham,
Tenho duas mãos esquerdas.
(sem ofensas a minha querida e amada canhota)
Então tento desenhar na mente.
O que vejo?
É a raquel?
Sim
É ela?
Sim!
É a raquel!
Mas ela é nebulosa,
É ela mesmo?
Eu não tenho uma foto dela na minha cabeça,
O que estou vendo então?
No shabat eu só tenho acesso a raquel da minha cabeça,
certeza é ela caramba,
mas não sei o que vejo,
não vejo uma imagem.
Vejo os seus cachos,
ah! Isso eu vejo sim,
Mas não são seus cachos físicos,
eu vejo suas cachezas,
isso sim,
Não vejo seus olhos,
Não vejo seu olhar,
mas vejo seu azul,
isso sim.
Então fico todo azul,
Por te ver e não te ver,
Por saber que tem certas dimensões tuas que estão comigo,
Mas algumas não estão
E só estarão
Em menos de um mês po!
Em menos de um mês, tá bom.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Minhas anotações baseadas na palestra sobre suicídio
[Não se sinta na obrigação de ler ou responder, sei que tá longo e talvez não te interesse muito, mas quis compartilhar!]
Luto por suicídio e a clínica com pacientes com ideação suicida
Luto por suicídio e a clínica com pacientes com ideação suicida
- Prof.
Dr. Marcelo Sodelli, fenomenólogo hermenêutico, docente do curso de
Psicologia da PUC-SP (pesquisador no campo de Suicídio).
- Profª
Drª Maria Helena Franco, Professora Titular da PUC no Programa de Estudos
Pós-graduados em Psicologia Clinica e fundadora do Laboratório de Estudos
e Intervenções sobre o Luto – LELu, da PUCSP.
_________________________________________________________________
- O
suicídio como fenômeno irreversível
- Necessidade
de compreender o suicídio inserido num contexto de mundo pós-moderno.
- O
que nós sabemos sobre o suicídio?
- Só
o antes, e não o fenômeno em si.
- Não
sabemos o que é a morte em si, só podemos saber o que é a vida.
- Visão
de Heidegger sobre a morte
- Perguntas
que o paciente pode fazer dentro do espaço clínico:
- Qual
é o sentido da vida?
- O
paciente, ao perguntar isso, de fato espera uma resposta por parte do
terapeuta → Causa angústia no terapeuta
- Sempre
é possível superar um sofrimento?
- 3
dimensões para entender como se dá o fenômeno do suicídio
- O
mundo
- O
eu
- O
outro
- Diferentes
visões acerca do suicídio, dependendo da época e contexto → Mostra que nem
sempre o suicídio é visto como algo ruim e errado
- Grécia
antiga: Suicídio como ato de honra e demonstração de coragem, um
privilégio do homem
- Hoje
em dia: Suicídio como fuga (alguém tentando fugir de seus problemas), ato
de covardia, visto como patologia
- Nietzsche:
´´Deus está morto´´ (A Gaia Ciência, 1882)
- Essa
frase condensa o espírito da época: distanciamento da religião,
niilismo
- Perigo
do niilismo: A morte de Deus deveria trazer uma liberdade nunca antes
vista, mas estamos perdidos, não sabemos para onde ir e nem o que fazer
com isso. → A falta de um referencial externo traz desespero → o homem
procurará novos deuses = razão, humanismo, ciência, leis.
- A
fé virou razão, a dona da verdade é a Ciência, nossa nova religião é o
progresso do homem.
- Ao
realizar esse statement, mostra-se uma mudança de paradigma.
- Agora,
temos um novo Deus, que não está ligado ao sagrado, mas sim à ciência.
Usamos a ciência para preencher o espaço que antes Deus e os valores
transcendentais preenchiam.
- A ciência tenta entender e explicar os
fenômenos, para alcançarmos um controle e domínio sobre tais
fenômenos.
- Como dominar o fenômeno do suicídio?
- A ciência hoje casou com o capitalismo,
buscando o capital.
- Só áreas que dão retorno ganham
investimento.
- Ex. A área da tecnologia
- Hoje,
o mundo é movido pela tecnologia e pela técnica.
- A
experiência foi substituída pelo experimento.
- A
sociedade de hoje é movida pela técnica, pelo desempenho, pela
performance.
- Perdemos
a possibilidade da intimidade.
- Facebook,
instagram: publicamos a intimidade, pois publicar o que é público não
tem graça, não rende likes.
- Não
precisamos mais de chefes, nós somos nossos próprios chefes, nós mesmos
mandamos na gente.
- Mundo
virtual
- Infinito,
ilimitado
- Ilusão
de que a vida não acaba, de que não há resistência para a vida
- Quem
se torna usuário do mundo virtual também vai se tornando infinito,
imortal.
- Suicídio
interrompe a atemporalidade, indica que algo não está funcionando. É
visto como patologia.
- É
difícil lidar com o suicídio, porque é um fenômeno que nos escapa
- Não
é captado/detectado por escalas e questionários.
- O
suicídio não tem uma causa, é um acontecimento.
- Estatística:
90% dos suicídios são ligados a alguma patologia.
- Depressão
≠ Tristeza ≠ Melancolia
- Será
que todo mundo que pensa em se matar, está deprimido?
- Será
que toda pessoa que se suicida, tem uma psicopatologia?
- Será
que alguém pode estar tendo um sofrimento psíquico e querer se suicidar
sem necessariamente estar doente (ou seja, se suicidar estando em
plenitude)?
- Para
dar fim a sofrimento físico
- Suicídio
assistido
- Geralmente
para pessoas que estão tendo um sofrimento físico (dores insuportáveis),
um diagnóstico de doença terminal.
- A
facilitação ao suicídio do paciente, onde o agente, normalmente um
parente próximo, põe ao alcance do enfermo terminal alguma droga fatal
ou outro meio parecido. → Portanto, o suicídio assistido exige que o
paciente esteja totalmente consciente.
- Suicídio
assistido vs Eutanásia
- Suicídio assistido: realizado pela própria
pessoa
- Eutanásia: ato deliberado de provocar a
morte sem sofrimento do paciente com fins ‘’misericordiosos’’.
- Legalizado
na Holanda, alguns estados dos Estados Unidos, Alemanha e Suíça
- No Brasil, tanto o suicídio assistido como
a eutanásia são proibidos e considerados homicídios, e o praticante
pode ser penalizado.
- Curiosidade:
A eutanásia e o suicídio assistido eram muito praticados na Grécia e Roma
antigas. Na cidade de Marselha, existia um depósito público de cicuta
(veneno extremamente poderoso) à disposição de todos que querem se
suicidar. Em Atenas, o senado tinha o poder absoluto de decidir sobre a
eliminação de velhos e incuráveis, dando o conium maculatum- bebida
venenosa, em cerimônias especiais.
- Alguém
que pensa em suicídio, que traz esse tema pro espaço clínico, está livre
ou não-livre?
- A
tentativa de suicídio pode ser um impulso. E às vezes, esse impulso passa.
Mas às vezes não.
- O sobrevivente do suicídio é aquele que era próximo, de alguma forma, da pessoa que se suicidou. Por exemplo, a mãe de filho que se suicida é uma sobrevivente do suicídio.
- A função do psicólogo não é perdoar o sobrevivente do suicídio, dizendo coisas do tipo: ´´Ah, tudo bem, você é uma pessoa bacana…´´. Em vez disso, o psicólogo deve ´´gastar´´ o assunto, conversar sobre, perguntar porque aquele sobrevivente se sente da maneira como se sente (culpado, triste, etc) → ´´Porque você acha que você não é uma boa pessoa?’’
- Cometer
suicídio está completamente relacionado com a sua compreensão de mundo.
- Nem
sempre envolve loucura, surto, impulsividade.
- Tem
a ver com o sentido. Qual o sentido da minha vida? Qual o sentido
do meu suicídio? → E é essa reflexão que pode levar ao suicídio, ou seja,
nem sempre é uma motivação patológica.
- Porém
em geral, a pessoa que se mata de forma serena não é a pessoa que está na
clínica, porque essa pessoa tem certeza daquilo, ela está em paz com sua
escolha. Tanto que essa morte é aquela que surpreende a todos, porque
ninguém esperava que fosse acontecer.
- As
mulheres tentam mais se matar, mas são os homens quem mais
conseguem se matar. Ou seja, quem de fato se mata é mais o homem. → 4
homens para cada uma mulher.
- Possíveis
explicações
- A
mulher, na hora H, pensa mais na sua família (ex. muitas das mulheres em
nossa sociedade são mães), enquanto o homem tende a pensar mais em si
mesmo.
- O
homem é visto na sociedade como aquele que tem que ser agressivo, bem
sucedido, então ele acaba empregando métodos mais violentos e agressivos
de se matar, o que acaba tendo ´´sucesso´´.
- O
psicólogo precisa entender quem é o paciente, quais as falas trazidas por
esse paciente.
- Quero
sumir ≠ Quero ser atropelado ≠ Já planejei como quero me
matar…
- O
Prof. Marcelo, na sua clínica, sempre faz uma espécie de ´´contrato
prévio´´ com o paciente, dizendo que ele se dá o direito de avisar a
família caso sinta que a vida do paciente está em risco.
- Porém,
o psicólogo deve ser muito cauteloso nesse aspecto, e saber qual o
momento em que a situação está de fato crítica o suficiente para avisar a
família.
- Se
em toda sessão, o psicólogo avisar a família que o paciente está pensando
em suicídio, isso terminará a terapia, porque trará angústia para a
família e a família irá dizer que não sabe lidar com a situação e que
quer internar o membro em alguma instituição.
- Clichês
ditos sobre o suicídio
- ´´Quem
fala não faz´´
- ´´Tá tentando chamar atenção´´
___________________________________________________
Se quiser entender um pouquinho mais da psicologia fenomenológica, a partir do ponto de vista do Marcello Sodelli que deu essa palestra, esses vídeos são bacanas!! Eu escreveria mais sobre o que eu penso de cada um desses vídeos/pontos que eu acho interessante sobre cada um deles, mas talvez é algo que não ''cabe'' no blog... Se você tiver interesse, me avisa e vou ficar feliz em compartilhar aqui no blog! Se não, eu deixo no meu diário mesmo haha
https://www.youtube.com/watch?v=OBFl-KNcmHQ: O que é uma terapia de fato terapêutica?
https://www.youtube.com/watch?v=lc8xFy5ek8w: A temporalidade do terapeuta
Reencontros inesperados
[00:57]
[Sentada na mesa da cozinha, depois de comer banana com doce de leite quente]
[Cansadíssima mas com vontade de escrever antes que me esfriem essas palavras mornas de sentimento]
Esses dias, não sei bem ao certo porque, eu estava ouvindo aquela música ''O que será que será- A flor da pele'', inclusive depois de ouvir a do Caetano primeiro, porque Caetano é Caetano, ouvi a versão do Chico Buarque com o Milton Nascimento, que lembro que você dizia preferir. Provavelmente coloquei essa música para escutar, numa tentativa até que bem-sucedida, mas admito um pouco dolorida, de te resgatar de alguma forma, de me sentir conectada e perto de você. Se não nos teus braços, então em música.
Pois bem, ouvir essa música esses dias mexeu comigo.
Acho que estou dizendo esses dias mas na verdade foi só ontem e hoje mesmo haha.
Enfim.
Mexeu comigo.
E até agora quando escrevo isso, me comovo, lágrimas brotam discretamente nos meus olhos. Estão ficando azuis.
Ouvir aquela cancão mexeu comigo, mexe comigo, porque me rememora o nosso comecinho tímido, me traz à lembrança aquelas primeiras vezes em que você vinha me buscar de carro em casa e eu nem ao certo sabia no que eu estava me metendo, mas desde relativamente cedo já senti que haveria uma sintonia entre nós, que aquilo ia pra frente de alguma forma.. Nem te beijava de oi, nem abraço, nem sequer mãos. Te cumprimentava apenas com as palavras. Você não me olhava muito no olho, eu buscava aqueles teus olhos que já tinha percebido serem morenamente mais morenos que os meus, queria sentir como era olhar fundo nos teus olhos, porque pra mim isso diz muito sobre a pessoa, mas você, enquanto explicava alguma ideia ou contava como foi seu dia, olhava em quase todas as direções menos na minha. (estou exagerando levemente para efeitos de dramatização textual)
Aquele começo...
Leve, tímido, aos poucos, muitas e muitas conversas, uma infinita troca de palavras antes de qualquer troca de corpo... Mal eu sabia como iria me apaixonar.. Me encontrar em você, me perder em você... Pensar que hoje literalmente choro de saudades suas..
Não lembro ao certo o contexto de onde surgiu essa música do ´´que será que será´´, mas lembro que foi você quem me apresentou, e imagino que foi quando eu estava aqui no Brasil pra Pessach e você na Croácia, ou em Israel logo antes de ir pra Croácia.. Porque lembro que você me mandou algo sobre essa música no whatsapp, e eu fiquei interessada e fui pesquisar, vi que ela foi feita pro filme ´´Dona Flor e seus dois maridos´´, baseado no livro de Jorge Amado. E que então foram compostas três ´´versões´´ da música, que eram tocadas em diferentes momentos do filme.
[Sentada na mesa da cozinha, depois de comer banana com doce de leite quente]
[Cansadíssima mas com vontade de escrever antes que me esfriem essas palavras mornas de sentimento]
Esses dias, não sei bem ao certo porque, eu estava ouvindo aquela música ''O que será que será- A flor da pele'', inclusive depois de ouvir a do Caetano primeiro, porque Caetano é Caetano, ouvi a versão do Chico Buarque com o Milton Nascimento, que lembro que você dizia preferir. Provavelmente coloquei essa música para escutar, numa tentativa até que bem-sucedida, mas admito um pouco dolorida, de te resgatar de alguma forma, de me sentir conectada e perto de você. Se não nos teus braços, então em música.
Pois bem, ouvir essa música esses dias mexeu comigo.
Acho que estou dizendo esses dias mas na verdade foi só ontem e hoje mesmo haha.
Enfim.
Mexeu comigo.
E até agora quando escrevo isso, me comovo, lágrimas brotam discretamente nos meus olhos. Estão ficando azuis.
Ouvir aquela cancão mexeu comigo, mexe comigo, porque me rememora o nosso comecinho tímido, me traz à lembrança aquelas primeiras vezes em que você vinha me buscar de carro em casa e eu nem ao certo sabia no que eu estava me metendo, mas desde relativamente cedo já senti que haveria uma sintonia entre nós, que aquilo ia pra frente de alguma forma.. Nem te beijava de oi, nem abraço, nem sequer mãos. Te cumprimentava apenas com as palavras. Você não me olhava muito no olho, eu buscava aqueles teus olhos que já tinha percebido serem morenamente mais morenos que os meus, queria sentir como era olhar fundo nos teus olhos, porque pra mim isso diz muito sobre a pessoa, mas você, enquanto explicava alguma ideia ou contava como foi seu dia, olhava em quase todas as direções menos na minha. (estou exagerando levemente para efeitos de dramatização textual)
Aquele começo...
Leve, tímido, aos poucos, muitas e muitas conversas, uma infinita troca de palavras antes de qualquer troca de corpo... Mal eu sabia como iria me apaixonar.. Me encontrar em você, me perder em você... Pensar que hoje literalmente choro de saudades suas..
Não lembro ao certo o contexto de onde surgiu essa música do ´´que será que será´´, mas lembro que foi você quem me apresentou, e imagino que foi quando eu estava aqui no Brasil pra Pessach e você na Croácia, ou em Israel logo antes de ir pra Croácia.. Porque lembro que você me mandou algo sobre essa música no whatsapp, e eu fiquei interessada e fui pesquisar, vi que ela foi feita pro filme ´´Dona Flor e seus dois maridos´´, baseado no livro de Jorge Amado. E que então foram compostas três ´´versões´´ da música, que eram tocadas em diferentes momentos do filme.
Abertura
À flor da pele
À flor da terra
Especialmente a letra da ´´À flor da pele´´ me tocou muito, achei ela liricamente muito bonita e forte, expressiva. E hoje ela faz mais sentido do que nunca.
O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
E nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
Vi o filme todo. Adorei. Me emocionei, pra variar..
Me impressionou muito o papel da atriz Sônia Braga. Jovem, expressiva, bonita, vigorosa, cheia de energia.
A Sônia Braga que vi hoje estava diferente. Na sala de cinema da qual acabo de sair, ela estava velha, enrugada, cabelos grisalhos, costas curvadas. Sua aparência mudou drasticamente, mas todo o resto nela permanece. Sua essência, sua expressividade, sua habilidade de expressar a peculiaridade e intensidade dos sentimentos humanos, seu talento estava lá.
Reencontros espontâneos, inesperados. Esses são os que mais me tocam, pois me pegam de surpresa e respaldam o meu acreditar, talvez ingênuo mas certamente sincero, de que há sim algum significado e propósito por trás desse mundo que muitas vezes soa caótico e aleatório.
Ao ler um pouco sobre o filme antes de ir ao cinema hoje, o nome de Sônia Braga surgiu como uma das atrizes do filme. Confesso que eu, que não acredito em coincidências e sinto que tudo, ou quase tudo, é Deus se comunicando comigo, me emocionei. Um reencontro espontâneo entre a Sônia Braga de antes, jovem e toda bonita, e a de agora, visivelmente sob influência das amarras do tempo. Mas era a mesma Sônia. E ela estava lá, tecendo essa ponte de conexão entre dois momentos na minha vida. Surgindo para me fazer consciente de todo o caminho que já percorremos, de todas as linhas de amor e cumplicidade que já escrevemos...
6 meses atrás, pouquíssimas semanas depois de te conhecer, ainda não totalmente embriagada pelo teu amor -
e hoje,
entregue ao que quer que o futuro me dê ao teu lado, pois do teu lado já não consigo sair.
Não sei se você está captando a profundidade do que estou dizendo, ou se deve estar pensando que eu vejo conexões e sentidos onde não tem, e que nada mais aconteceu do que eu ter visto a mesma atriz em dois filmes diferentes, em dois momentos diferentes da minha vida, ou melhor, da minha vida com você. Grande coisa.
Pois é! Pra mim é de fato uma grande coisa...
A Sônia de ontem se reencontrou com a Sônia de hoje, e eu pude presenciar esse reencontro.
A Raquel de ontem se reencontrou com a Raquel de hoje, e eu pude presenciar o quanto as coisas mudaram desde que eu te conheci, o quanto a Raquel ainda é a mesma mas também já é tão diferente... Era coisa, negócio, dinâmica... Passou por oásis, refúgio.. Hoje prefiro não definir, porque qualquer tentativa de definição limitará e não conseguirá captar a sintonia e intensidade do nosso amor.
Hoje, quando os olhos dela se tornam azuis, muitas vezes é por você,
por gratidão de ter te encontrado, ou melhor, de não ter demorado pra te encontrar, porque segundo uma perspectiva de חיוב, esse encontro já estava previsto para acontecer...
por um amor que não cabe em mim e encontra seu escoamento em forma de lágrimas...
por uma perplexidade ao contemplar o fato de Deus ter criado alguém que se encaixa tão bem com o que Ele criou de mim..
por uma contemplação da tua sensibilidade, carinho, profundidade, inteligência e ao mesmo tempo humildade...
e no momento, azuis pelas saudades sem fim que estou sentindo...
''O que será que me dá? (...) Que é feito uma aguardente que não sacia...''
E tenho certeza que nunca saciará,
pois como eu já te disse várias vezes,
todos os dias dessa vida não serão suficientes
para tudo o que eu ainda quero viver
ao
seu
lado
.
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
E se você estivesse aqui...
[Na cama]
[Escutando 93 million miles- acho que não é seu estilo]
E se você estivesse aqui
Eu faria lugar pra você nessa cama de solteiro
Ou dormiria em cima de você como desculpa pra caber nós dois.
Entrelaçaria minhas pernas por entre as tuas
E meus pensamentos por entre os teus
E me tardaria ali por alguns instantes.
Pegaria na tua mão e a colocaria por sob a minha
Para ver o contraste de nossas cores,
Para sentir o calor da tua pele atravessando dentro de mim.
Te penetraria com o meu simples olhar,
E se você ainda estivesse de óculos, o tiraria
Pra ver teu rosto todo, por inteiro.
Contornaria ele com os meus dedos
E pousaria meus lábios de leve nos teus
E me tardaria ali por alguns instantes.
E depois te beijaria com vontade
Descendo minhas mãos pelo teu corpo
Faria uns carinhos por onde eu fosse passando
Sussurraria no teu ouvido o quanto eu te amo
E te deixaria com uma marca vermelha no pescoço.
Observaria teu peito subindo e descendo enquanto você respira,
E num instante todo meu corpo se arrepiaria
De pronto, sedenta por você
Arrancaria toda camada têxtil que separasse meu corpo do teu,
E me deitaria em cima do corpo nu que ali eu descobrir
Sentindo cada parte do meu corpo sob cada parte do teu,
No encaixe perfeito que meu corpo só conhece no teu,
E me tardaria ali por alguns instantes.
[Escutando ''O que será que será Flor da Pele''- e de repente chorando rios]
E quando você finalmente estiver aqui
Eu farei lugar pra você em qualquer cama que for
E dormirei em cima de você mesmo quando couber nós dois.
Entrelaçarei minhas pernas por entre as tuas
E meus pensamentos por entre os teus
E me tardarei ali para sempre.
Pegarei na tua mão e a colocarei por sob a minha
Para ver o contraste de nossas cores,
Para sentir o calor da tua pele atravessando dentro de mim.
Te penetrarei com meu simples olhar,
E se você ainda estiver de óculos, o tirarei
Pra ver teu rosto todo, por inteiro.
Contornarei ele com os meus dedos
E pousarei meus lábios de leve nos teus
E me tardarei ali para sempre.
E depois te beijarei com vontade
Descendo minhas mãos pelo teu corpo
Farei uns carinhos por onde eu for passando.
Sussurrarei no teu ouvido o quanto eu te amo
E te deixarei com uma marca vermelha no pescoço.
Observarei teu peito subindo e descendo enquanto você respira,
E num instante todo meu corpo se arrepiará
De pronto, sedenta por você
Arrancarei toda camada têxtil que separe meu corpo do teu,
E me deitarei em cima do corpo nu que ali eu descobrir
Sentindo cada parte do meu corpo sob cada parte do teu,
No encaixe perfeito que meu corpo só conhece no teu,
E me tardarei ali para sempre.
Eu no teu
O teu no meu
Nós em nós
Dentro de nós
Mergulhado em nós
Penetrado em nós
Nós
No falso relógio da demora
[02:04]
[O vento raja lá fora. Faz frio, lá fora e aqui dentro, bem dentro.]
[Me sinto tranquila, dopada por alta dose de sono, e imersa em fluidez fruto da contemplação de coisas que já nem sei se existem]
A luz solar dos teus olhos líquidos
chega-me suave e suada
pela vidraça da fortaleza
e a tua voz, que é música,
se erguendo no ar,
salgada e nua sinto-te no litoral da língua,
e nenhuma garça agarrada ao estendal do vento me ensina o poema.
Sou agora a música, o poema,
a garça sem graça,
no falso relógio da demora.
-Sangare Okapi, do livro ´´Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo´´
No falso relógio da demora,
Cada pétala minha pisada,
Porque tive que ir embora,
Se é contigo minha morada?
O relógio é falso porque inexiste
A dimensão temporal bate em vão.
Quando o amor existe, insiste
Não há temporalidade num coração.
Impor a um querer sedento
que espere até o dia raiar
É ordená-lo que durma ao relento
Sem poder livre despertar
E eu então durmo aqui debruçada,
No falso relógio da demora.
Me agarrando ao que resta-
Apenas memória.
[O vento raja lá fora. Faz frio, lá fora e aqui dentro, bem dentro.]
[Me sinto tranquila, dopada por alta dose de sono, e imersa em fluidez fruto da contemplação de coisas que já nem sei se existem]
A luz solar dos teus olhos líquidos
chega-me suave e suada
pela vidraça da fortaleza
e a tua voz, que é música,
se erguendo no ar,
salgada e nua sinto-te no litoral da língua,
e nenhuma garça agarrada ao estendal do vento me ensina o poema.
Sou agora a música, o poema,
a garça sem graça,
no falso relógio da demora.
-Sangare Okapi, do livro ´´Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo´´
No falso relógio da demora,
Cada pétala minha pisada,
Porque tive que ir embora,
Se é contigo minha morada?
O relógio é falso porque inexiste
A dimensão temporal bate em vão.
Quando o amor existe, insiste
Não há temporalidade num coração.
Impor a um querer sedento
que espere até o dia raiar
É ordená-lo que durma ao relento
Sem poder livre despertar
E eu então durmo aqui debruçada,
No falso relógio da demora.
Me agarrando ao que resta-
Apenas memória.
Assinar:
Postagens (Atom)